sexta-feira, 17 de junho de 2016

Critica de X-Men - Apocalipse

"Como um troféu no meio da bugiganga.
Muitas águas rolaram desde a estreia de X-Men - O filme (X-Men, 2000), tanto na história da luta dos mutantes pela conquista de um espaço de igualdade na sociedade humana, como na indústria do cinema e as superproduções de filmes de super heróis. Essas duas histórias aos poucos se entrelaçaram, sendo o primeiro filme um precursor dessa fórmula atual de fincar a fantasia das HQs nos dilemas reais do mundo moderno, de forma que dos anos 2000 pra cá já não interessa tanto o delicioso tom cartunesco de umBatman - O Retorno (Batman Returns, 1992), mas sim essa pretensão épica de um trabalho politizado, reflexivo, espelhado nos dramas de pessoas comuns e preocupado em expor a condição humana por trás das máscaras e roupas coloridas de borracha. Hoje, dezesseis anos depois, temos uma enxurrada de todo o tipo de filme de herói, desde os mais bobinhos, passando pelas inevitáveis bombas, até as próprias continuações e spin-off dos mutantes, pela segunda vez derrapando na conclusão de uma trilogia com X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016). 

Os personagens de X-Men sobreviveram desde as fictícias ameaças de fim do mundo, destruição da civilização e viagens no tempo até os conflitos reais da crise dos mísseis em Cuba, assassinatos de presidentes americanos, traumas relacionados à Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria e, em caráter mais pessoal, aos dramas de serem considerados aberrações não bem aceitas na sociedade. Essa montanha de temas diversos nunca soou pretensiosa ou pueril, e o trunfo da série sempre foi a aptidão de assimilar toda essa incrível carga fantástica de maneira orgânica e muito realista, jamais careta, conquistando assim a simpatia tanto dos fãs de um bom blockbuster cheio de efeitos especiais como de minorias que se viram representadas nas histórias de cada um dos personagens. Mas, como nem tudo é perfeito, X-Men: Apocalipse sofre da “síndrome do terceiro filme” – aquela aparente maldição que acomete todo o capítulo final de trilogias no cinema americano (e reconhecida pelo próprio Bryan Singer numa brincadeira com O Retorno de Jedi durante a projeção). O tom épico de gran finale não corresponde à expectativa gerada e o que temos de fato é um filme morno e descaracterizado. 

A princípio, o plot do capítulo final é o mais ambicioso de toda a série. En Sabar Nur (Oscar Isaac), o primeiro mutante da história da humanidade, é uma espécie de ser eterno que ao longo das eras foi absorvendo os poderes e forças vitais de outros mutantes para se manter vivo e cada vez mais forte. Adorado como um deus pela civilização dos antigos egípcios, ele acabou preso num sono profundo dentro de uma pirâmide no Cairo, após um plano de sabotagem de seus subordinados. Agora, no século XX, anos 1980, ele é acordado e está disposto a extinguir a raça humana, crente da superioridade evolutiva dos mutantes, e para isso começa a montar sua tropa de seguidores, composta por Tempestade (Alexandra Shipp), Anjo (Bem Hardy), Psylocke (Olivia Munn) e Magneto (Michael Fassbender).  Do outro lado, o professor Charles Xavier (James McAvoy), Fera (Nicholas Hoult) e Mística (Jennifer Lawrence), adeptos do discurso de paz e boa convivência entre humanos e mutantes, reúnem seus melhores alunos e amigos para combater En Sabar Nur, entre eles Ciclope (Tye Sheridan), Mercúrio (Evan Peters), Moira MacTaggert (Rose Byrne) e Jean Grey (Sophie Turner). 

Apesar da história promissora, a execução acaba falha, começando pelos efeitos especiais de qualidade inferior em relação aos capítulos anteriores, com um uso desvairado de CGI e uma direção de arte brega. Tudo isso se mostra reflexo de dois problemas: a contaminação da saga pela forma de fazer cinema comercial atual e a perda do equilíbrio entre ação e drama. Muita correria, explosões, efeitos especiais alucinados de qualidade duvidosa e barulheira procuram forçar goela abaixo a ideia de um épico final, mas não são o suficiente para convencer quem quer que seja de seu pretensioso tom grandioso; em outras palavras, um filme qualquer. A partir desse primeiro impasse, a conseqüência é um trabalho sem peso dramático, em que pela primeira vez os conflitos pessoais dos personagens são preteridos em meio a um caos narrativo e visual. A grande sacada de toda a série sempre foi o fator humano dos mutantes, que os relegava à condição de meros mortais, tão problemáticos e errantes quanto qualquer pessoa comum e, justamente por isso, incapazes de se colocar num patamar superior da escala evolutiva. Serviam, no fim das contas, como metáforas que expunham os preconceitos da sociedade moderna, os erros consequentes da desigualdade social, os malefícios de Guerras e, no geral, um retrato certeiro dos tumultuados anos que formaram o século XX. 

Apocalipse surge então como uma nova peça nesse tabuleiro, carregando em si várias possibilidades de discussões teológicas e antropológicas, na forma de um ser todo poderoso que se vê no direito de decidir sobre a vida dos outros e que se enxerga como uma divindade a ser idolatrada. Seu despertar em pleno século XX depois de eras adormecido e alheio a tudo, levanta uma discussão sobre a visão imparcial e neutra do mundo moderno, seus governos, guerras, desigualdades, religiões, fome, injustiças, segregação, militarismo, racismo, violência, desamor. Diante disso tudo, En Sabar Nur só reafirma sua certeza de que o homem é sua própria ruína, incapaz de se governar, necessitando assim ou de um ser de força superior para dominá-lo ou da completa extinção.  No entanto, essa introdução incrível do personagem perde completamente a força conforme o filme se desenrola e ele acaba caindo de escanteio como um mero vilão desalmado e sem nenhuma profundidade ou nuance. Todo esse mundo de possibilidades que existe dentro de Apocalipse se esvai em uma composição padronizada. Claro que em um filme qualquer, é comum ver esse tipo de antagonista, mas na saga X-Men o embate sempre foi ideológico e clamou por personagens que lutassem por uma causa válida. Também prejudicados pela falta de inspiração do roteiro, Magneto, Mística e Xavier não conseguem completar os arcos dramáticos e as soluções morais acabam fáceis demais, redondas demais. Da mesma forma, outros como Jean Grey e sua habilidade de se tornar a Fênix perdem a lógica dentro da série, visto que nos filmes da primeira trilogia a personagem é muito mais velha e ainda não tem o controle absoluto sobre toda sua força como demonstrou aqui enquanto adolescente. 

O resultado desse confronto é a descaracterização parcial da identidade que a saga tinha construído tão bem até então, e o que decepciona mais é ver Bryan Singer, o diretor da primeira trilogia e do filme anterior, no comando. Se alguns momentos inspiradíssimos salvam tudo da catástrofe, como na sequência em que Mercúrio salva em câmera lenta todos os mutantes do Instituto Xavier ao som de Sweet Dreams, ou no resgate das origens de personagens como o Ciclope e a Tempestade, o todo é bagunçado e preguiçoso. A conclusão de tudo é que nesse universo das HQs/Marvel, os humanos precisam dos mutantes tanto quanto os mutantes precisam dos humanos, e nós aqui do outro lado da tela precisamos de filmes comerciais politizados e bem desenhados como os da saga X-Men, desde que estes não derrapem mais como Apocalipse derrapou agora. ''

Postado por Marcelo Leme no site Cineplayers , em 17/09/2013

Crítica Invocação do Mal

"Adaptação de possíveis manifestações demoníacas nos tempos de O Exorcista e Amityville.
Gênero difícil de trabalhar esse de terror, especialmente quando relacionado a possessões demoníacas, já que muito já fora feito e relativos sucessos conquistados, ainda com a sombra comparativa ao clássico imortalizado, O Exorcista (Exorcist, The, 1973). Se há muito pouco o que se inovar, então que seus clichês sejam tratados com alguma astúcia e que a história os tenha a seu favor narrativamente, e não como o típico mais do mesmo esgotado que funciona com os desacostumados. O anúncio de que se baseia numa história real vem como o prenúncio da possível existência do fato. Nunca fora comprovado. Ainda assim é o bastante para atrair olhares e motivar alguns curiosos a irem ao cinema conferir um dos mais custosos trabalhos dos famosos demonologistas (?) Ed e Lorraine Warren. De quebra ainda há a lembrança de um dos casos mais discutidos da dupla, o da apavorante boneca Anabelle.

Lembrado geralmente por iniciar a febre Jogos Mortais (Saw, 2004), o diretor malaio James Wan entra na onda do sobrenatural pela segunda vez em poucos anos. Ele já tinha proporcionado uma experiência diferenciada em seu longa anterior, o competente e assustador Sobrenatural (Insidious, 2010) – que ganhará uma sequência ainda este ano –, demonstrando o quanto poderia ser promissor em filmes de horror. Com esse Invocação do Mal, provou que é uma boa aposta para um estilo desgastado. Ele dirige um filme de gênero definido e investe em nuances sombrias aterrorizantes, sem o uso exaustivo da trilha ou das sombras que oferecem espantos repentinos os quais praticamente prevemos antecipadamente. Seu trabalho de câmera, ora subjetivo, ora objetivo, é bem sucedido. Ele passeia pelos corredores e encontra guinadas em alguns planos específicos sem cortes. É visualmente atraentíssimo!

A dupla central que encarna o casal Warren é vivida por estrelas hollywoodianas. Patrick Wilson – trabalhando novamente com Wan após Sobrenatural – assume o papel de Ed, demonologista não-padre reconhecido pelo vaticano que dá palestras explicando seu trabalho como se pudesse demonstrar cientificamente o que diz dominar. Já Vera Farmiga, sempre tão talentosa, dá uma dubiedade notável a Lorraine que sofre com o ofício, pois é mais do que uma caçadora de demônios, é uma sensitiva que revive situações e enxerga além das manifestações daqueles que busca salvar. Com a dupla de prestígio, Wan não se preocupa tanto em dirigir atores, já que notoriamente dá liberdade a experiência dos mesmos. Ele se concentra claramente nas 6 crianças em volta que seguem padrões ritmados cena após cena. Uma delas é Mackenzie Foy que viveu a filha de Edward e Bella em A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 2 (Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2, The, 2012). Ao menos dessa vez ela participou de um filme cujo sobrenatural pode ser levado a sério.

A favor da obra está a ambientação setentista. Faz um eco com Amityville - A Cidade do Horror(Amityville Horror, The, 1979). O cunho artístico nos transporta aos filmes da época. A ausência de tecnologia surge como um empecilho para os personagens e um trunfo aos realizadores. O figurino e estilização também contribuem para acessarmos 40 anos atrás. Com isso emergem alternativas de horror, tal como o distanciamento do homem da cidade cuja dificuldade de comunicação compromete sua segurança; ou os métodos de trabalho dos Warren, limitados, com câmeras e microfones precários; e as brincadeiras das crianças que divertem-se com um simples esconde esconde, promovendo boas cenas salientando a ameaça presente, porém invisível.

O roteiro baseado no evento dito verídico se concentra em tentar dar um embasamento teórico as manifestações através de aulas, palestras e diálogos entre os personagens, pondo em dúvida o que é verdadeiramente real. Os roteiristas, Chad Hayes e Carey Hayes, especialistas em filmes de terror, se encarregam de passar informações importantes para compreendermos o que está acontecendo e o que poderá vir a acontecer. É um acerto narrativo que oferece com didática várias possibilidades de sucessões, sem preocupar-se em cumprir cada uma. Pesquisas e constatações religiosas surgem com ênfase à idéia de tratar-se de possessões demoníacas, há até uma breve retratação histórica a respeito da ação do catolicismo a respeito desses casos.

Dirigido com crueza e sem inventividades, mas com competência, adentramos numa atmosfera distinta, sombria e ameaçadora. Nos importamos com seus envolvidos diretos: a família atormentada num antigo casarão que compraram num leilão e o casal caçador com suas razões pelas quais escolheram trabalhar com isso. Percebemos temores nas minúcias, nos detalhes bem dispostos, como em uma cena onde uma das meninas está desesperada afirmando ver alguém atrás da porta de seu quarto. Não vemos o que ela enxerga, tampouco questionamos sua sanidade, somos levados a crença devido ao que já fora proposto logo nos minutos iniciais da fita. Farmiga também expressa detalhes em sua atuação sucinta, são vários os atos em que observa alguns locais subitamente fazendo expressões temerosas reparando o que nós e os outros personagens não tem condições de perceber. Quando a câmera converte-se em seu olhar, aí sim vislumbramos o que lhe terrifica.

Subvertendo formas, o filme se desenrola com clareza surpreendente, já que não larga muita coisa em suspensão, resolvendo-se em suas limitações. James Wan é criativo, varia cenas de profunda tensão com outras de terna leveza, cumprindo conjuntamente a fotografia e direção de arte um universo ermo. Finalizado, comparamos inevitavelmente a obras semelhantes e notamos o quão melhor Invocação do Malé justamente por ser serenamente objetivo e rústico, pensado cuidadosamente. Precisamos acreditar no que vemos por 120 minutos para o filme funcionar. O ceticismo amarga as experiências que filmes de horror proporcionam e deve ser ignorado em benefício do cinema e de sua arte."


           Marcelo Leme - Postado no site Cineplayers em 17/09/2013

sábado, 4 de junho de 2016

Esse é um site de críticas de filmes criado por mim, Gustavo, e meus amigos João e Alexandre, para um projeto de Artes E Tecnologias, da aula de Artes na escola E.E. Maria Montessori, com nossa amada professora Ana  ;)